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Marcos Sales tem 41 anos, mas parece ser mais velho. Os cabelos embranqueceram, os dentes estão estragados e falta-lhe um dos olhos. Quando a Polícia Militar passa ao lado e toca a sirene, ele não hesita e se levanta da calçada da alameda Helvétia. A reação virou automática no último ano, desde que a famigerada concentração de usuários de crack de São Paulo se partiu em dezenas de pedaços, dentro e fora do centro paulistano. Após agressões e tentativa de internação forçada, Marcos sabe bem que pode ser perigoso errar a coreografia que garante o cenário das peças de divulgação do governo paulista que decretaram o fim da Cracolândia.

Vozes como a de Marcos não aparecem nessas propagandas. Há 12 anos na Cracolândia, desde que chegou de Salvador (BA), ele é um dos poucos que seguem ali apesar da política de repressão e remoção dos dependentes químicos. O Metrópoles passou os últimos seis meses colhendo testemunhos do fim de um fluxo principal de usuários e a dispersão em grupos menores. Pesquisando por meio de processos judiciais, documentos, pedidos de Lei de Acesso à Informação (LAI) e dezenas de entrevistas, o que a reportagem encontrou foi uma rotina de brutalidade policial nas ruas do centro, acompanhada de ações higienistas e internações em massa sem porta de saída eficaz - algumas vezes com métodos que lembram os antigos manicômios.
A apuração revelou que o número de pessoas internadas contra a própria vontade explodiu pouco antes da dispersão. As mortes cometidas pela polícia na região acompanharam esse movimento. O Metrópoles analisou os inquéritos de cada um dos casos ocorridos desde o início de 2023 e descobriu quantos moradores de rua ou dependentes químicos foram mortos - a maior parte deles estava desarmada. Apesar da invisibilização do problema, o brilho dos cachimbos de crack segue presente sob viadutos e pontes, em canteiros centrais, vielas e dentro de comunidades. “Falam: 'Acabou com a Cracolândia'. Mas em cada esquina que você passa você vê: 'Ó o bloco, ó o bloco, ó o bloco'", diz Marcos, referindo-se ao apelido da pedra de crack.
Até maio de 2025, a Rua dos Protestantes, na região da Luz, foi o último endereço do fluxo da Cracolândia, como se convencionou chamar a maior concentração de usuários de drogas, que já chegou a ter mais de duas mil pessoas. Era uma multidão insistente, que permanecia no perímetro mesmo após uma série de ações que apostaram em internações em massa, prisões e repressão policial nas ruas. No dia 13 daquele mês, passaram a circular imagens do local vazio, com dependentes químicos migrando para diferentes áreas da cidade. Seis meses depois, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) cravou publicamente o fim da Cracolândia.

“Estamos colocando São Paulo na direção certa, e, quando a gente bota na direção certa, o impossível acontece. A Cracolândia acabou”Declarou Tarcísio em vídeo gravado no cenário esvaziado do antigo fluxo, hoje uma mistura de antigos hotéis, comércios emparedados e conjuntos habitacionais.